terça-feira, 27 de junho de 2017

Israel: A Geografia é o seu maior inimigo

Fundado em 1948, o Estado de Israel está localizado na margem oriental do Mar Mediterrâneo. O país tem fronteira com a Faixa de Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria, Jordânia e Egipto. O território de Israel tem historicamente sido uma atracção para os grandes poderes, desde os romanos até os britânicos. Para um poder mediterrâneo, Israel pode servir como uma ponte estratégica continental e para um poder oriental, o controle de Israel é necessário para garantir a defesa do flanco desse poder.

Israel contém varias partes de quatro regiões topográficas distintas. O Negev é uma extensão do deserto do Sinai e representa mais da metade de Israel. A planície costeira começa na Faixa de Gaza e estende-se para o norte até a fronteira com o Líbano. A região da colina estende-se do monte Hermon, no norte ate ao sul de Jerusalém. O vale do rio Jordão segue o comprimento deste e continua até o Mar Vermelho. Israel também reivindica os dois terços ocidentais dos Montes Golan, um planalto estratégico. O núcleo do país está na planície costeira e na região norte e central da colina. Mais de 3 milhões dos aproximadamente 8 milhões de habitantes de Israel vivem na grande area metropolitana de Gush Dan, que tem por núcleo central Tel Aviv

O principal desafio geográfico de Israel é a falta de recursos naturais, isto combinado com a falta de profundidade estratégica: O seu ponto mais estreito é de apenas 15 quilómetros de largura. Israel actualmente tem a capacidade de se defender, mas deve manter uma postura de constante prontidão militar. Embora os avanços na tecnologia de dessalinização da água o tenham ajudado a resolver os problemas de escassez e as descobertas de campos de gás natural offshore relativamente grandes em Tamar e Leviathan tenham melhorado o acesso de Israel ao gás natural, Israel ainda é um país muito pobre em recursos.

Israel historicamente sempre dependeu do apoio de um grande patrocinador do poder, e muitas vezes teve de equilibrar as suas relações com as potências regionais que não nutrem por ele qualquer respeito que não seja o militar. Qualquer brecha séria na unidade interna pode ser aproveitada pelas potências regionais para destruir este Estado.



sábado, 24 de junho de 2017

O que se vê e o que não se vê

O que aconteceu no passado fim de semana em Portugal é só mais uma manifestação de algo muito mais abrangente que, neste momento, se verifica em todas as sociedades avançadas do planeta; o falhanço do Estado como forma de organização de sistemas complexos, como o é a sociedade global e híper-conectada no séc. XXI. 

O fim das grandes narrativas ideológicas, que nos levaram à pós-modernidade e que tiveram o seu clímax no fim da bipolaridade, não deram origem a nenhuma estrutura alternativa, porque impossível estar formada uma desde já, levando a um estado de letargia onde novos problemas são endereçados por soluções antigas. Só assim se entende que pessoas intelectualmente privilegiadas continuem a defender mais Estado perante a incapacidade total das soluções tradicionais deste modelo organizativo em responder aos princípios estratégicos básicos que lhe deram origem, a saber; promover a segurança e o bem-estar das pessoas.

Estamos numa fase de transição. Temo que o fim possa ser abrupto, violento e obviamente doloroso, mas só ele poderá levar a aceitação, nestas ditas sociedades avançadas, de novas formas de organização, menos centralizadas e colectivistas, menos coercivas e mais voluntárias e partilhadas. 


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Uma nova grande estratégia para os EUA; Tim Kaine propõe uma na FA

Interessante artigo de Tim Kaine na Foreign Affairs (FA), com o titulo A New Truman Doctrine, Grand Strategy in a Hyperconnected World. Kaine, Democrata, Jesuíta e apoiante de Hillary Clinton de quem era o proposto vice-presidente na eleição recente contra Trump, refere que os Estados Unidos estão a deriva no que a Politica Externa (PE) diz respeito, não tendo uma estratégia clara para um Mundo que segundo Kaine é "....Today’s world is not bipolar, as it was during Truman’s day. It’s tripolar: power is now exercised by democratic states, authoritarian states, and nonstate actors. A contemporary U.S. security doctrine must operate in that framework and offer a guide for action that treats each group distinctly.". Para ele a Doutrina Truman, que deu origem a guerra fria, já não faz sentido mas não houve até agora outra que a substituísse. Felizmente digo eu !

Normalmente quando um Democrata intervencionista diz que não há estratégia de PE para o Mundo e propõe uma nova doutrina Truman, eu fico preocupado pois antecipo o pedir de mais intervencionismo bélico e económico. Sendo Kaine o numero dois de quem era, esperava um forte ataque a Trump e mais do mesmo; intervencionismo. O Senedor Kaine não me deixou ficar mal. O artigo está bem feito e parece que os Democratas aprenderam algumas lições passadas sobre o Iraque, a Líbia ou a Síria, No entanto os laivos intervencionistas continuam lá e para Kaine tem que haver mais músculo contra os Estados não democráticos, de forma a que os valores dos EUA voltem a ser respeitados ( quiçá temidos...)

Quais são assim as propostas ? Em relação as Democracias ele propõe uma liderança pelo exemplo; em relação aos Estados autoritários ele apresenta como abordagem " The United States should skillfully challenge such states in the hopes that they will increase their commitment to democratic values, as well as their commitment to peaceful relations with other nations and their integration into global institutions. Challenging authoritarian nations requires different tactics depending on the issue. Sometimes the United States should cooperate, sometimes compete, and sometimes confront." e finalmente em relação ao actores não estatais destaca a necessidade de combater o ISIS e o terrorismo, frisando a necessidade de alinhar com a Rússia nesta acção e dizendo que  "Trump is therefore right when he argues that the United States should work with Russia to defeat groups such as ISIS. While there are many reasons to be skeptical about Russian intentions in other areas, fighting terrorist organizations has long been a key Russian priority, and there is no reason not to work together toward that end."

Kaine apresenta posteriormente uma serie de ideias que chamo de intervencionismo soft, ou seja os EUA devem "To protect itself in the future, the United States must always send a clear message to those who mean Americans harm: don’t mess with us. And Washington must back that message up by always defending the country, the American people, and U.S. institutions with swift, visible, and overwhelming force. Failure to do so emboldens U.S. enemies and undermines American allies’ confidence that Washington will come to their aid when needed.". Parece-me que o medo de uma Rússia forte ao nível do ciber, faz com que Kaine reafirme a necessidade de os EUA entrarem em guerras preventivas, se bem que aprendendo com os erros passados.

No entanto a parte do texto que mais me chamou a atenção foi o apontar para a América como Continente como espaço geográfico de acção a privilegiar pela PE dos EUA. Kaine afirma em dois parágrafos centrais do artigo;

"...Finally, as the United States seeks to define a new grand strategy for the twenty-first century, it needs to correct one long-term trend. Since the country’s earliest days, its policymakers have tended to think in East-West terms. We have focused most of our attention on Europe, Japan, the Soviet Union, the Middle East, China, Southeast Asia, and Russia, while neglecting the global South. We have seldom paid enough attention to the Americas, in particular, and when we have—whether through the Monroe Doctrine or by battling communist movements during the Cold War—we have focused more on blocking outsiders from building influence in the Western Hemisphere than we have on the nations already there.

That must change. The United States needs an “all Americas” national security policy that places primacy on North, Central, and South America. It should not be an “Americas only” policy, one that limits the United States’ involvement with democracies elsewhere. But the United States should shift its focus. The 35 nations that make up the Americas share significant cultural similarities and boast a combined population of more than one billion. Thanks to the cease-fire that Washington helped broker in Colombia, for the first time in recorded history, there are now no wars being fought in the hemisphere. The region is also home to two of the United States’ top three trading partners, Canada and Mexico, and the United States’ commercial ties to these and other countries in the Americas will continue to be critical to the U.S. economy. Meanwhile, the move toward the normalization of U.S. relations with Cuba has removed a perennial obstacle to improved relations with other parts of Latin America." Isto é de facto novo e merece, pela minha parte, uma atenção futura maior a este tema. 

Recomendo a leitura de um artigo que vale pelo seu todo aos que se interessam por Relações Internacionais e Politica Externa dos Estados Unidos. (NT: aproveitem a "borla" da FA e leiam o artigo todo no link )



sexta-feira, 9 de junho de 2017

Qatar; It’s the Gas Stupid !

A recente visita de Trump a Arábia Saudita foi de uma enorme importância. Para além dos negócios associados, Trump reforçou o apoio a esta monarquia, legitimando-a ainda mais na região. A Arábia Saudita e os sunitas sabem que podem contar com Trump e com os EUA.

É a luz destes recentes acontecimentos que tento compreender o que se passa no Qatar. As acusações de apoio ao terrorismo e de ligações ao Irão - verdadeiras ou não - não chegam para enquadrar todo o isolamento que os Sauditas entre outros estados do Médio Oriente, impuseram ao pequeno Estado, isto quando ja se fala mesmo de uma intervenção militar.

É meu entendimento que as razões estão no gás natural do Qatar.

O gás natural tornou-se a fonte de “energia limpa” favorita para sec. XXI e a UE é o mercado com maior potencial de crescimento. Este é um dos principais motivos para Trump querer acabar com a relação de dependência da Gazprom russa que domina a UE no fornecimento de gás.

O maior reservatório de gás natural conhecido do mundo está no meio do Golfo Pérsico e encontra-se nas águas territoriais do Qatar e do Irão. A parte iraniana é chamada South Pars e a do Qatar North Field. 

Em Julho de 2011, os governos da Síria, do Irão e do Iraque assinaram um acordo para construção de um gasoduto com inicio perto do campo de gás South Pars no Golfo Pérsico, até Damasco na Síria, através do território iraquiano. Este acordo tornaria a Síria o centro de estratégico de toda a operação futura de colocação de gás na Europa. A outra opção é a construção futura de um gasoduto Qatar -Turquia, que se ligue ao Nabucco que alimenta a UE.

As razões para o gás ser fonte de discórdia começam em 1995 quando começou o transporte de gás natural líquido do maior reservatório do mundo; o campo norte offshore, que fornece o Qatar e é partilhado com o Irão, o grande rival da Arábia Saudita. Rapidamente o Qatar se tornou um dos Estados mais ricos do Mundo - com uma renda per capita anual de  130.000 US - sendo capaz de competir com a Gazprom Russa e afastando-se dos interesses focados unicamente no petróleo que os seus vizinhos apresentam.

Facto é que o Qatar teve esta exploração bastante condicionada para estudos tendo levantado a moratória a que se auto prescreveu em 2005 começando a explorá-lo agora com maior intensidade, porque a Austrália, os EUA e a Rússia estão a aumentar também a sua produção, tal como o Irão que tem a parte norte do banco de gás partilhado com o Qatar. O mercado ficou bem mais agressivo. Esta foi a forma de o Qatar se posicionar estrategicamente para 2020 na luta pelo mercado do GNL. Obviamente que estando o Irão a explorar a mesma reserva de gás, haja possibilidade e necessidade de se trocarem informações e de se fazerem acordos.

Neste momento um estado pequeno e que sempre teve um papel menor no Médio-Oriente, começa a ser objecto de preocupação por parte dos seus vizinhos, num clássico fenómeno de balanço de poder regional.

Vejamos o seguinte. No que ao futuro diz respeito há duas opções centrais (ver figura):

1) O pipeline Irão-Iraque-Síria que vai dos campos de gás do sul do Irão e passa por este pais, o Iraque, a Síria e o Líbano para alcançar a costa da Síria e fornecer aos clientes europeus directamente dos terminais da Síria, evitando passar pela Turquia. Esta rota tem o apoio e protecção da Rússia;

2) O pipeline proposto pelo Qatar-Turquia que começa nos campos de gás iraniano-qatariano e atravessa a Arábia Saudita, a Jordânia e a Síria e a Turquia para se ligar com o gasoduto Nabucco na Turquia abastecendo os mercados turco e europeu. A UE e os EUA preferem e apoiam esta rota, mas para tristeza de muitos Assad na Síria recusa-se a permitir que o gasoduto passe pelo território sírio para a Turquia.

Com a iminente vitoria de Assad e Putin na Síria, a monarquia baseada em Doha terá compreendido rapidamente que a Rússia não irá permitir que o pipeline que tinha previsto, passe na Síria, sendo estrategicamente mais interessante os qataris alinharem com o Irão e com a Rússia, isto mesmo quando o Qatar é anfitrião da maior base militar dos EUA na região. 

Estes sinais desagradaram e muito quer a Arábia Saudita, que não quer aliados do Irão na fronteira, nem um estado com o nível de autonomia que o líder sheik Tamim Ben Hamad Al-Thani tem (relembro que a Al-Jazeeera tem neste pais a sua base e que o Qatar tem apoiado a Irmandade Muçulmana o que desagrada profundamente aos Sauditas) bem como aos EUA, que ali têm uma base central e a quem um alinhamento do Qatar com o Irão e Rússia só pode causar problemas na sua estratégia de redução da dependência da UE do gás russo.

Percebe-se assim que o recente backup de Trump à casa de Saudi tenha dado o mote para que estes últimos tenham hostilizado seriamente o Qatar. Nada faz prever que as coisas arrefeçam, o que leva a mais instabilidade à região o que não interessa a ninguém que seja da ...região ! Como disse Bill Clinton certa vez com outras palavras mas com a mesma intenção; Its the gas Stupid !



domingo, 4 de junho de 2017

O terror voltou a Londres. Quem tem razão; Roy ou Kepel ?

O terror voltou a Londres. Pergunto a mim próprio que mais poderei dizer ou escrever sobre este assunto. Lembro-me dos que morreram. Do que poderia ter sido a sua vida. Das famílias destruídas. Penso que temos de perceber tudo isto, para resolver esta situação e sinto até uma certa responsabilidade em contribuir para a compreensão. O conformismo que alguns denotam é a mais imoral das atitudes. A força bruta irracional dos que querem “arrasar tudo” alivia mas não resolve nada.Unicamente adia até à próxima vez.

Lembrei-me assim da disputa acalorada entre os dois mais notáveis estudiosos franceses do islão político, Gilles Kepel e Olivier Roy e sobre as suas respostas à questão de porquê é europeus se tornam terroristas islâmicos.

O seu vincado desacordo não é apenas uma disputa intelectual. A forma como entendemos o extremismo islâmico - e quais as respostas políticas adequadas – dependem das perguntas e respostas que temos a questão acima. É por isso que acho a querela Kepel vs Roy tão importante nos dias que correm.

Os terroristas são principalmente…Europeus !

A maioria dos assassinos dos ataques de Bruxelas, Paris e Londres foram criados nestes países. Por que é essas pessoas se revoltam contra os seus próprios compatriotas - e quem é/são os culpados? Oliver Roy defende que não estamos falando de uma "radicalização do Islão", mas sim a "islamização do radicalismo". Ele acha que devemos parar de procurar explicações religiosas ou culturais, já que apenas uma pequena fracção de muçulmanos europeus tem sido atraída por tal extremismo. Ele também refuta a ideia de que o racismo ou a discriminação é que radicalizou os muçulmanos nas sociedades europeias. Se este fosse o caso, diz ele, por que é um número substancial de convertidos europeus brancos se juntou a grupos como o Estado islâmico?

Em vez disso, Roy argumenta que estes terroristas estão envolvidos numa revolta geracional idealista - como quando furiosos jovens europeus na década de 1970 aderiram aos grupos terroristas de extrema esquerda como as Brigadas Vermelhas, a ETA, o IRA ou os Baden Mayhoff . De acordo com Roy, os niilistas de hoje voltam-se para uma versão deformada do Islão, como a melhor forma de se revoltarem contra a sociedade que consideram opressora, imoral e injusta. Eles  usam a promessa do paraíso, das virgens e da vida eterna com Alá, para justificar as suas acções, depois de serem manipulados por organizações extremistas e autoproclamados Imãs.

Roy vai mais longe e refere que muitos dos terroristas Europeus não eram particularmente religiosos. Eles eram mais propensos a serem encontrados em discotecas do que em mesquitas e muitas vezes têm uma história de pequenos crimes, alcoolismo e droga. Roy concorda que a religião tem alguma relevância, mas argumenta que os factores psicológicos e de alienação são os mais importantes na radicalização.

Devemos responsabilizar especificamente o salafismo?

Kepel acha que a (auto)-marginalização social, económica e política dos muçulmanos nascidos na França e também em UK, ajudou a criar o que ele chama de "terceira geração de jihadistas" - aqueles que surgiram entre 2005 e 2015. A sua marginalização levou-os as formas extremas de islamismo como o salafismo; uma versão altamente conservadora do islamismo, importado do Médio Oriente com a ajuda dos petrodólares da Arábia Saudita e do Qatar. Kepel acha que não se pode separar o jihadismo violento do salafismo islâmico e enfatiza a importância de tais crenças religiosas e dos seus conteúdos violentos e anti-ocidentais na criação das condições para atrair o terrorismo. 

Num debate histórico no Liberation, Roy afirmou  que não ignora o papel da religião e concordou com Kepel sobre a extensão do salafismo nos subúrbios pobres da França, Bélgica e mesmo na Grã-bertanha. No entanto, ele diz que isso não pode explicar a radicalização extrema, suicida e violenta de jovens. Roy rejeita a noção de que o salafismo ajude a incubar o extremismo violento - ou que os perpetradores das atrocidades de Bruxelas, Paris ou Londres sejam simplesmente classificados como Salafistas. Kepel, por sua vez, admitiu que existem algumas semelhanças entre diferentes formas de extremismo, mas reiterou a sua crença na ligação entre o Islão, o terrorismo Jihadista e o salafismo.

Os pontos de vista de Kepel e Roy talvez sejam complementares. É importante que todos os que se dedicam a estas áreas trabalhem juntos e em diferentes disciplinas para percebermos por que é que na sua maioria são os jovens os atraídos para estes comportamentos extremos como o terrorismo.

Para saber mais;

The Professor and the Jihadi - Gilles Kepel

Who are the new jihadis? - Oliver Roy




sábado, 27 de maio de 2017

Morreu Zbigniew Brzezinski

Morreu Zbigniew Brzezinski um dos mais relevantes pensadores geopolíticos e conselheiro de segurança do Presidente dos US, Jimmy Carter durante a Guerra Fria.
Saliento ironicamente que as suas melhores "estratégias " foram armar os Mujahideen no Afeganistão para "sangrar os Soviéticos" e transformar o Irão num pais anti-ocidental.
Brzezinski ajudou inadvertidamente a criar a Al-Qaeda, quando convenceu o presidente Carter de que a execução de um programa secreto da CIA para lançar uma guerra contra o governo afegão apoiado pela URSS iria "induzir uma intervenção militar soviética" - "Nós não pressionamos os russos a intervir, mas conscientemente aumentamos a probabilidade de que eles o fizessem" , disse ele numa entrevista concedida em 1998 a Le Nouvel Observateur.
Aqui fica o link para um dos seus artigos de referência na Foreign Affairs, The Cold War and its Aftermath, onde se podem ler muitas das suas ideias para o período que actualmente vivemos; pós-guerra fria. Muito do que disse não foi tido em conta - porque o ambiente bipolar ainda era o seu contexto de prospectiva. Destaco no entanto este paragrafo e pensem na Rússia actual de Putin.
"That socioeconomic transformation will be long and painful. The West, in proffering aid and advice, must be careful not to replace old communist dogmas with new dogmas of its own regarding the application of capitalist practices. Any attempt to create simultaneously a free-market economy and a political democracy that does not carefully seek to minimize the social pains of the needed transition could precipitate a destructive collision between these two objectives. This collision could then discredit both goals in the eyes of the affected peoples and enhance the appeal of some new escapist doctrines."

Quase 200 anos de hegemonia Prussiana. Parte 3.2 - O final da Guerra, o Armistício e a Vergonha imposta à Alemanha.

As dificuldades económicas fazem com que os aliados possuam fracas remessas de mantimentos. Mas em 1918 a Bulgária assina a paz com os Aliados, e a Alemanha envia uma nota de paz aos americanos a 4 de Outubro de 1918.
Esta posição não é consensual dentro do governo americano, sendo que existe a posição de Lundendorf é de que a Alemanha não consegue manter nenhum esforço de guerra, mas existe Handenau que assume a façanha de quem quer manter o esforço de guerra, não se podendo esquecer que Handenau é o homem que em 1914 foi imposto a função de garantir a logística alemã, de maneira que este homem, aquando das primeiras vitórias alemãs é a favor de tratados de paz imediatos sem negociações, mas agora, em 1918, é da posição de que a guerra tem que se continuar para que a posição em que se negocia a paz seria uma posição de força.
Para piorar a Áustria possui revoltas interiores, como o que se passa na sua marinha e nas suas capacidades logísticas. Socialmente em 1918 surge o concelho nacional checo, que se diz detentor da capacidade de falar pela futura nação Checa. Assim este concelho declara a independência da Checoslováquia, sendo que o concelho húngaro faz o mesmo para si. Assim sendo o Império que entra na guerra não sai da guerra.
Quanto à Polónia, em Outubro de 1918 tenta libertar-se a tutela alemã declarando-se independente da Alemanha, retirando também do seu governo os alemães que teriam sido lá colocados, sendo que esta independência padece de um território que envolve territórios ucranianos, que o concelho nacional ucraniano não aceita essa casacão de territórios.
Assim, ainda não acabou a primeira guerra mundial, mas já existem espectros de guerra com as fronteiras que estes novos estados reclamam.
Tendo em conta o que se passa na Áustria torna a posição da Alemanha numa posição mais fraca, sendo que o Presidente Wilson recusa a nota de paz do governo da Alemanha, para mais o Presidente Wilson exige para a negociação do Armistício (documento que fixa a suspensão do Estado de Guerra) entre a Alemanha e os EUA é a retirada das zonas ocupadas pela Alemanha das zonas ocupadas no início da guerra, tal como uma evacuação da Áustria da Sérvia.
A retirada alemã oferecia aos EUA uma impossibilidade da Alemanha controlar o continente europeu e de que a Alemanha possa beneficiar seja o que for dos últimos 4 anos de guerra… o que não acontece.
Guilherme II aceita que o esforço de guerra continue, mas na Alemanha existem movimentos separatistas e que promovem o fim da Monarquia na Alemanha e são a favor de uma Republica Soviética na Alemanha. Entre o final de Outubro e inicio de Novembro de 1918 as tropas alemães dão aso a vários incidentes de insubordinação, sendo que a Armada alemã demonstra-se inabalável na desobediência aos superiores, sendo que no final de 1918 o perigo de uma sublevação Soviética é muito real.
O governo alemão sucumbe aos primeiros dias de Novembro a movimentos Soviéticos e aos Sociais-democratas, sendo que em 5 de Novembro é decretada pelo governo, a abdicação de Guilherme II no filho (sendo que Guilherme II não concorda), e as rédeas do governo são dadas aos Sociais Democratas devido a estes serem vistos coo mais moderados.
É assim que a Alemanha se apresenta nas negociações de paz, para mais, o que agora se tem em conta não é a guerra, mas sim, o perigo das sublevações que se passam no meio dos poderes centrais poder espalhar para o resto da Europa, e mesmo para o resto do mundo.
A ideia Americana neste contexto é infligir uma derrota definitiva aos alemães, sendo que queriam que o esforço de guerra fosse levado a um ponto em que a Alemanha tivesse que se render sem nenhuma condição. Esta ideia não é correspondida pelos comandos franceses e ingleses, visto que principalmente os franceses não viam os americanos como um exército visto que não tinham grande experiência de combate, e desta forma os franceses querem a paz para descansar os seus homens, sendo que os ingleses vão nesta esteira.
Para mais as informações que chegam aos Aliados, é de que a Alemanha está de tal forma mal internamente que não é preciso atacar a Alemanha e continuar o esforço de guerra para que a Alemanha esteja disposta a aceitar rendição sem termos.
A Alemanha assim aceita o armistício, entregando a sua artilharia pesada, 25000 metralhadoras e 3000 torpedos, evacuam os portos do mar negro, recuam a leste às fronteiras de 1914, tal como a Oeste. Têm de entregar 3 couraçados pesados e 3 ligeiros, boa parte dos contratorpedeiros e todos os submarinos. A mais a Alemanha tem que estar preparada para pagar reparações de guerra, sendo que sobre isso a Bélgica e a França irão exigir uma outra taxa para reparar o que aconteceu ao território invadido pela Alemanha.
Os alemães terão de entregar locomotivas, vagões e equipamento ferroviário num período de 36 dias e em bom estado.
Até à margem esquerda do Reno, vê-se uma ocupação militar da Alemanha.
Estes são os termos do ARMISTÍCIO.
O comando alemão afirma que terá de aceitar estes termos, mesmo que estes termo signifiquem a fome na Alemanha, a dissensão generalizada e os tumultos internos, algo que vem a cair em cima dos problemas que já se sabia que haviam, quer pelos Franceses que pelos Ingleses. Isto não preocupa os comandos aliados visto que era o que isso tudo tinha acontecido nos territórios ocupados pelos alemães.
Às 11 Horas do 11 Dia do 11º Mês de 1918 dá-se o cessar-fogo. A partir daqui começasse a negociar a paz, sendo que este processo demora 6 meses em Paris.
A principal figura destas negociações será o Presidente Wilson, mas a partir de Abril de 1917, quando os EUA entram na guerra, não entram nesta Guerra contra a Tríplice Aliança com associado da Tríplice Entonte e não como seu aliado, de maneira que assim os EUA poderão manter a sua distância de qualquer documento que a as potências da Tríplice Entonte tenham assinado devido á guerra. Assim os EUA não estão obrigados a cumprir os tratados assinados entre a Inglaterra e a Itália tendo em conta o aumento da dimensão da Itália tendo em conta os territórios que a Itália ganharia se as forças da Entonte ganhassem a guerra.
A delegação americana demora 1 mês a chegar à Europa, o que leva a que no momento em que chegam, já as potências europeias possuem acordos sobre a divisão europeia no pós guerra.
A Jugoslávia (Reino dos eslavos do Sul) reclama para si (antes do armistício) as fronteiras da Áustria, sendo que isto irá confrontar as fronteiras que a Itália diziam suas. A população de Fiúme declara a sua independência da Jugoslávia e requer a sua adesão ao Reino da Itália.
As negociações de paz são iniciadas com uma enorme malha de novos estados, que não são decretadas pelas grandes potências. Assim sendo estes novos estados vão sentar-se na mesa das negociações sem nunca terem entrado no esforço de guerra (como foi a Estónia, Latvia e a Lituânia), sendo que isto acontece pela ideia de Wilson da Autodeterminação dos Povos.
Assim Paris torna-se em 1918/1919 como um palco para todas e mais qualquer uma reivindicações, sendo que zonas que não constituem nações fazem-se representar, como o Curdistão, Irlanda e Índia, sendo que é perguntado ao Presidente Wilson o que fazer. Wilson apesar de aceitar a soberania auto-proclamada dos países eslavos e Bálticos, não aceita no entanto autonomia da Irlanda.
Começasse a perguntar qual é a fronteira à autodeterminação dos povos, sendo que essa autodeterminação não é dada a Fiúme, ou ao Curdistão ou à Irlanda. A paz com a Alemanha é alcançada em 1919, mas vários tratados vão ser celebrados até 1922.
Assim esta conferência de Paris dedicasse a dois objectivos, como os mecanismos que regulam a paz e as relações com os vencidos, e também a criação de uma organização que regule as confrontações entre os estados.
Tentava-se assim criar uma nova ordem que fosse reconhecida por todos, tal como a jurisdição dessa nova ordem. Era o objectivo de Wilson garantir que isto acontece. O Presidente Wilson queria ficar um mês fora dos EUA, mas acaba por ficar 6 meses, sendo que internamente isso terá problemas para a sua política, de maneira que por via de Wilson os EUA estão na base da criação de uma entidade supra nacional que não virão a rectificar, mas também não virão a subscrever nenhum dos tratados que as potências ganhadoras assinam, e portanto não rectificam o tratado de Versalhes. Existindo assim dois tipos de tratados, os da Entonte com as potencias que perderam a guerra, e os tratados dos EUA com essas potencias, sendo que a não rectificação dos EUA sobre estes tratados feitos pelas potencias da Entonte leva a que os EUA não rectifiquem o tratado de Versalhes e por sua vez a Sociedade das Nações.
Guilherme II irá para o exílio na Holanda, onde fica até á sua morte, sendo que irá ser muito critico de como a guerra acaba, irá escrever memórias e irá estar em contacto com as forças politicas alemãs como o Partido de Centro e o Partido Nacional Socialista, de maneira a que estes partidos tentarão ter em Guilherme II um apoio de maneira a arranjar legitimidade para legitimar a sua ascensão, sendo que Guilherme II não irá aproximar-se de nenhum deles. Esta não aproximação devia-se a que Guilherme II se achava com referencias politicas e culturais diferentes das do Partido Nacional Socialismo, sendo que Hitler escreve a Guilherme II dizendo que é um homem que promove a grande Alemanha e como um homem que é contra os aristocratas alemães que traíram a Alemanha (tal como dizia Guilherme II), mas não aceita a antiga aristocracia, de maneira que tenta (Hitler) criar uma nova.
A França nas negociações de Paz, quer substituir a Alemanha como a potencia industrial da Europa, sendo que que para isso irá exigir as zonas do Saar e Lorena. A França exige isto também porque as minas franceses no norte de França foram inundadas pelos alemães, e porque a maior parte do Teatro de Operações no solo francês são as áreas mais industrializadas de França, demonstrando que a França perde fortemente a sua capacidade industrial. Assim sendo para a França recuperar a sua posição, a França necessita de aceder a matérias-primas que era a Alemanha que detinha.
Inicialmente e durante a guerra a Inglaterra não se importa com isto, mas no final da guerra, não será assim, visto que nas negociações do pós guerra a posição da França será grande na negociação dos territórios do médio Oriente e África.
No final da guerra o paradigma da França é diferente do paradigma do inicio da guerra, visto que no inicio a Inglaterra não se importa que a França queira os territórios industriais franceses, mas já se importa no final da Guerra porque a França apresentasse numa posição em que irá crescer desmesuradamente na Europa, África, Médio Oriente e Ásia, não querendo a Inglaterra, que depois de lidar com os expansionismo alemão tenha de lidar com o expansionismo francês ou de outra nação, seja ela aliada ou não. Também os EUA se opõem a isto, visto que a França ocupa as zonas industriais alemãs, mas por apenas 15 anos, sendo que segundo a auto determinação dos povos, o povo alemão nestas zonas votaria se quereria ficar em posse da Alemanha ou da França.
O que os franceses querem é o enfraquecimento da Alemanha, mas os Ingleses sabem bem que o que a França ganha é o que a Alemanha perde, e de acordo com as ambições inglesas, a Alemanha também tem de pagar as suas dívidas de guerra.
No final da Guerra a Alemanha perde mais território do que aquele que constou, sendo que a Alemanha pós 1919 é uma Alemanha que perde os espaços que a Prússia e Alemanha ganham na Europa no Séc. XIX, fala-se dos Ducados dinamarqueses, da Polónia e dos territórios franceses na terceira guerra de Bismark, sendo que para além de território, perde matéria-prima, perde população e recursos, sendo que perde também continuidade geográfica, visto que é entendido oferecer á Polónia acesso ao mar através do corredor de Danzig. Isto é o objectivo de cortar a Prússia, visto que depois de 1871 a Alemanha é vista como uma Alemanha “Prussificada” e para isso corta-se a Prússia em duas.
Também os cursos de água da Alemanha são internacionalizados, e assim a Alemanha perde soberania sobre os seus territórios, de maneira que qualquer pessoa pode entrar e sair da Alemanha sem dar conhecimento á Alemanha. Para mais a Alemanha é obrigada á desmilitarização, que engloba a incapacidade de produzir ou utilizar Artilharia pesada, a impossibilidade de usar uma Força Aérea, fica proibida de ter Marinha de Guerra acima de uma tonelagem, é obrigada a fechar todas as academias militares (incapacitando a formação de quadros militares), fica impedida da formação de corpos de segurança pública, fica reduzida a 100.000 no exército, sendo esse o número antes de 1913. Assim a prazo a Alemanha estaria impedida de ter exército.
A marinha não foi entregue, os alemães preferiram fundear os seus Navios no mar do Norte.
Segundo Versalhes, a Alemanha perde também todas as patentes industriais, cientificas, etc.. que tenham sido registadas por agentes alemães, que revertem para os aliados, e ficam também proibidos de estabelecer taxas alfandegárias. A indústria alemã leva com quotas de produção em especial a indústria química e cirúrgica. A Alemanha estava também obrigada às reparações de guerra (para além das reparações que tinha de pagar pelo armistício). Estas indemnizações de Guerra deveriam ser calculadas em face ao montante global da destruição, sendo que deveriam ser pagas face a quem teria perdido o quê, ou seja calculava-se a destruição física, humana, industrial, etc… sendo que quem tivesse mais destruição recebia mais.
Em 1919 não existe forma de calcular as indemnizações de guerra, sendo que em 1919 não se sabe os custos totais do esforço de guerra e dos estragos da guerra e por isso não se sabe quanto é que a Alemanha tem de pagar, sendo que por isso cria-se no tratado de Versalhes uma comissão para apurar as reparações de guerra, sendo que só em 1921 é que se irá anunciar os cálculos de guerra a que respeitam a Alemanha, que são de 32 mil milhões de marcos ouro. Sendo que a Alemanha é obrigada ao abrigo do tratado de 1919 a pagar estas indemnizações de guerra fazendo isso segundo uma lógica de numerário através de uma anuidade. Esta anuidade a termos financeiros seria aliviada sobre o esforço alemão, com o pagamento em géneros industriais, agrícola, animal, matéria-prima, género acabado, etc.
No final de 1919 a Alemanha assina o tratado em que se assume como culpada e que tem de pagar as indemnizações de guerra, sendo que assim fica sem saber até 1921 o que tem de pagar, e quando sabe o montante afirma que não tem capacidade económica para pagar.
Isto leva a que de 1921 a 1924 haja uma enorme hiper-inflação, de modo a que se levou a que o dinheiro de nada valesse, levando a uma impulsão da economia alemã.
A resposta Aliada (Franceses, Belgas e Italianos) foi a invasão do Ruhr que era a zona industrial alemã em especial da Siderurgia, sendo que esta ocupação militar visava garantir o pagamento das indemnizações.

As consequências disto é uma greve. O Ruhr e os donos das indústrias não abrem as fábricas, sendo que o estado alemão paga aos trabalhadores para não trabalharem. Isto significa que em 1922 a Europa está à beira de uma nova guerra.