sexta-feira, 7 de abril de 2017

Trump e Putin: A ruptura foi concluída hoje na Síria.

O ataque de hoje de forças norte americanas a uma base aérea síria na província de Homs, para além de ser um acto de guerra efectivo, marca uma mudança radical de posição do presidente americano em relação a Assad e não pode ser visto fora do contexto da política interna norte americana e da necessidade que Trump tem neste momento em se afastar de tudo o que o ligue à Rússia e a Putin. De alguma forma, Trump foi convencido que a Rússia interferiu nas eleições americanas e que é uma efectiva ameaça à integridade nacional dos EUA.

Tudo começou com o afastamento de Michael Flynn como assessor de segurança e da sua substituição pelo Gen MacMaster que é tudo menos um apreciador da Rússia, tendo mesmo referido publicamente que ela é a maior ameaça aos EUA neste momento. Com o aumento de influência de McMaster inicia-se uma purga entre todos aqueles que de alguma forma privilegiam ou defendem Putin e depois de Flynn caíram os notáveis Bannon e Nunes.

Trump sabe que o povo americano não perdoaria haver pró-russos no governo.Seria uma traição aos EUA ! Podemos tirar os EUA e a Rússia da guerra fria, mas não podemos tirar a guerra fria dos EUA e da Rússia ! Além disso o eixo China -Irão – Rússia tem de se sentir incomodado e Trump já decidiu que quer ser um elemento de incomodo por extrema necessidade do seu plano económico .

Ao que tudo indica Trump ficou sensibilizado pelas imagens de “lindos bebés sírios” e crianças mortos no ataque com gaz pelas supostamente forças Sirias pró Assad e decidiu intervir, curiosamente numa base que serve de ataque ao Daesh muito presente na região. É pena que só agora o presidente americano tenha ficado sensibilizado com os mortos e a guerra, pois não se conhecem posições formais relativamente aos milhares e milhares de mortos causados pelas intervenções Norte Americanas no médio oriente e no norte de africa.

Um ataque com mais de 50 tomwahks não se prepara de hoje para amanhã. A rápida reacção ao ataque químico na cidade síria de Khan Shaykhun, na província de Idlib, na terça-feira, e que ninguém em consciência sabe porque foi feito e por quem ao contrário das certezas deTillerson, parece preparada para que haja uma justificação para uma intervenção ilegal à luz do que são as supostas regras de intervenção internacional. A Síria é um estado soberano, Assad legitimamente eleito e a Rússia está a intervir na Síria porque Assad assim o pediu. O mesmo não pode ser dito dos EUA e de outros países ocidentais e da região.

A politica externa de Trump começa a ser clara. Será anti-Rússia e intervencionista. As coisas são o que são e não o que queremos que elas sejam. Esta é a máxima realista que pêlos vistos continua valida com esta nova administração americana.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Assad: Cara ou Coroa. Moeda de troca ou aliado.

Apesar da próxima relação que se tem verificado entre Assad e Putin, e da necessidade que Putin tem da Síria e que o regime de Assad tem de Putin, é necessário olhar para a Rússia pelo que ela é.
            A Rússia é um país com interesses próprios que decide por vontade própria não se enquadrar no Sistema Internacional, como tal, necessita de fomentar as suas alianças e blocos de interesse.
            Aparentemente a pedra basilar deste bloco de interesses é a Síria, não sendo para ninguém um espanto a investida da Rússia para o Médio Oriente, muito menos depois da retirada dos EUA do teatro de operações do Iraque, mantendo apenas forças consideráveis no Afeganistão (devido á sua proximidade com o Paquistão).
            Os EUA foram durante os últimos 15 anos os principais actores no Médio Oriente. Uma zona de grande riqueza em termos de matérias-primas, mas também uma zona vias de passagem para mercadorias (como a nova Silk Road chinesa). Para além de ser um vasto território que controla o acesso ao Mediterrâneo e ao Indico, para além de controlar a entrada Leste de África.
            Assim o controlo do Médio Oriente representa uma necessidade vital para qualquer potencial mundial e que aspire a algum tipo de hegemonia.
            A passagem e entrada da Rússia no Médio Oriente é a Síria, e para isso, muita publicidade tem sido feita á relação Putin-Assad. Mas será esta relação de aliança verdadeira?
            Ora veja-se a história da Rússia e da Síria.
            A quando da queda da URSS a sua herdeira, a Rússia, afasta-se dos contactos que a URSS possuía no MO, abrindo a porta para a Europa e EUA entrarem no Médio Oriente. Mas há que atentar que um dos contactos que sempre se manteve foi com a família Assad.
            Este contacto manteve-se mesmo na década de 90 do Séc. passado com Yeltsin que promovia uma Rússia mais europeia.
            Mas este contacto e associação veio a ser usado como um vector de política externa por Vladimir Putin, que sobe ao poder em 1999.
            A atitude de Putin é de Realpolitk. Um homem do KGB, criado na ideologia da URSS e influenciado muito por Alexander Dugin, um cabecilha da escola Eurasiática russa, uma escola expansionista que pretende confrontar o domínio unilateral dos EUA, Dugin por sua vez é também muito influenciado por autores como Mackinder ou Spykman.
            Putin via-se até á muito pouco tempo a enfrentar Obama, um homem que tinha uma política muito anti Rússia, tentando impedir que esta se afirmasse como uma Super Potencia, algo que Putin quer.
            Assad é no meio de isto tudo a moeda de troca de Putin em negociações com os EUA, mas também o seu principal aliado contra os EUA.
            A quando dos ataques químicos que Assad ordenou sobre as populações Suni - populações contra as quais Putin já tinha combatido na Geórgia – Os EUA na figura de Obama quiseram desarmar Assad, sendo que para isso fizeram um acordo com Putin, acordo esse que se baseava na premissa de que Putin ajudaria e influenciaria Assad a desarmar e Putin fazia chegar o armamento químico aos americanos que desmantelariam esse armamento em troca da posição favorável da administração Obama a uma emergência da Rússia no concelho dos G8 e reconhecimento da Rússia como uma Super Potencia e força regional com direitos inerentes.
            O que Obama deveria dar a Putin não foi dado. Putin cumpre a sua parte do acordo usando a influência que tem com o seu aliado, mas Obama que navegava na crista da onda da imponência americana e no espírito de bem feitor e guardião do planeta, puxa para que Putin retire Assad do poder por completo. Neste caso na Rússia vê-se insultada, mais uma vez, para além de ser remetida por Obama e pelos EUA quase para um papel de servente dos EUA (caso obedecesse).
            A Rússia é um Estado muito orgulhoso (factor que muitos decidem deliberadamente esquecer), de modo que a sua reacção foi a de virar as costas a Obama e apoiar o seu aliado Assad. Reforçando assim a sua posição na região e cria também a imagem de que a Rússia é um aliado de confiança.
            A Rússia usa também a desculpa de combater o DAESH para justificar a sua intervenção no Médio Oriente (para isso recomendo a leitora da ‘new-type of war’, uma doutrina militar desenvolvida pelos russos depois de observar os falhanços americanos no Médio Oriente). Esta desculpa oferece a Putin uma face de justiceiro, face essa que os EUA, em muito por culpa de liberais como Hillary Clinton e Obama, tem vindo a perder.
            A retirada dos EUA ajudou em muito o avanço da Rússia para o Médio Oriente. Esta descida foi impulsionada devido á falta de resposta efectiva da Europa e dos EUA depois da invasão da Crimeia pela Rússia, utilizando tácticas desenvolvidas no âmbito da ‘New-Type of War’ russa.
            A inutilidade do Sistema Internacional e a fraca resposta da Europa só deu mais animo a Putin.
            E Assad?
            A Rússia desenvolveu um paradigma interessante, visto que Putin agora apresenta uma escolha á comunidade internacional (ainda mais com os recentes bombardeamentos químicos de Assad). Ou a comunidade Internacional (Europa e EUA) condena Putin e a Rússia pelo apoio a Assad e por sua vez condena o combate contra o DAESH e o Terrorismo que é levado a cabo na Síria sobre o pretexto de apoio a Assad, ou permite que este apoio e combate continue.
            A escolha é Assad ou o Terrorismo, ambas as escolhas más para a comunidade internacional, mas que pouco aleijam a Rússia.
           Com o novo Presidente Trump e a sua política de cordialidade e boas relações com a Rússia em termos iguais, a Rússia pode muito bem meter tudo sobre a mesa e Assad, pelo menos no início, estará em cima da mesa.

           

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sai de cena a esquerda latino-americana

As estrelas da esquerda latino-americana; Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador chegaram ao fim da linha. O colapso económico e social da Venezuela e a estreitíssima vitoria do candidato de esquerda no Equador este fim de semana, indiciam que o capítulo esquerdista da recente história da América Latina chegou ao fim com estrondo.

O Brasil de hoje apresenta-se como a mais espectacular queda dos países emergentes. Sob a direcção do presidente Lula da Silva, os brasileiros viveram uma melhoria na qualidade de vida entre 2003 e 2010. 20 milhões de brasileiros saíram da pobreza e o Brasil lucrou com uma combinação de políticas macroeconômicas acertadas e um excelente ciclo de commodities alimentado pela China que impulsionou as exportações de um país rico em recursos.

Mas, à medida que a popularidade do governo subia, este começou a abandonar lentamente a prudência macroeconômica e implementar políticas nacionalistas, isto especialmente pela socialista Dilma Rousseff. A chegada do abrandamento económico Mundial levou a que o PIB do Brasil tenha ido de um crescimento robusto para uma profunda recessão - 7,5 por cento em 2010 para -3,8 por cento em 2015. 

A investigação Lava Jato, o maior caso de corrupção política da história do Brasil, que se concentra a volta da empresa publica Petrobras, acertou em Rousseff e Lula mas também a oposição, com o sucessor de Dilma, Michel Temer a ser acusado de corrupção e impedido de concorrer a cargos políticos nos próximos oito anos. Todo o centro politico parece “atingido de morte” e os brasileiros já não têm mais paciência para os seus políticos. Este é o campo aberto para a emergência populista.

A Argentina perdeu US $ 95 bilhões em 2001 e, dois anos mais tarde, os eleitores elegeram o esquerdista Nestor Kirchner para liderar o país que saia da estagnação económica. Na época, quase 50% dos argentinos viviam na pobreza. Mas, como Lula no Brasil, Kirchner teve a sorte de chegar ao poder durante o superciclo das commodities chinesas. A esposa de Nestor, Cristina, sucedeu-lhe em 2007, e nos 12 anos no poder, os Kirchner utilizaram o crescimento das exportações agrícolas para aumentar enormemente os programas do bem-estar social e os subsídios do governo aos argentinos. Os investidores estrangeiros duvidaram da economia especialmente quando ficou claro que os métodos e informação macroeconómica que o governo providenciava eram suspeitos.

Os argentinos mudaram em 2015 para o centro-direita com Mauricio Macri, que já tomou medidas para impulsionar a confiança dos investidores estrangeiros, unificando a taxa de câmbio e resolvendo os obstáculos com os credores internacionais para retornar aos mercados mundiais. Ainda assim, as políticas de Macri têm de proporcionar crescimento e investimento significativos, pois o estado em que os Kirchner deixaram a economia argentina é complicado. E Cristina? Está se a preparar para ser julgada por acusações de que, entre outras coisas, tentou defraudar o governo em mais de US $ 3 bilhões. 

Passando aos países onde a Esquerda está no poder;
O presidente Nicolas Maduro não tem o carisma ou o talento político do seu mentor, o falecido Hugo Chávez, que governou o país entre 1999 e 2013 e que consegui, entre 2002 e 2011, que a taxa de pobreza venezuelana caísse de 48,6 % para 29,5 %. Como Lula e os Kirchner, Chávez fez promessas iniciais para melhorar as vidas dos mais pobres e vulneráveis do país, que concretizou à boleia do ciclo chinês e do petróleo caro.

Maduro não tem essa sorte – nem o resto. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, numa época em que o petróleo se vende por cerca de US 50$ por barril – chegando a Venezuela a vendê-lo por US 42$. O petróleo é responsável por 95% das receitas de exportações da Venezuela, e o venezuelano médio está a sofrer por isso, num país carregado de serviços públicos que não funcionam. 93% dos venezuelanos hoje não se podem dar ao luxo de comprar comida suficiente para comer isto quando há comida para comprar. A inflação está em 800 % de acordo com estimativas não oficiais pois o banco central da Venezuela já não publica dados da inflação desde Dezembro de 2015. O governo parou também de publicar dados do PIB em Fevereiro 2016. O FMI estima que a economia venezuelana se contraiu 10 % no ano passado, sendo a economia nacional com o pior registo do Mundo!

Na Bolívia, Evo Morales está no cargo desde Janeiro de 2006. Eleito depois que seus dois predecessores foram expulsos em protestos populares, o ex-líder sindical rapidamente renacionalizou as indústrias de petróleo e gás do país e usou a infusão de dinheiro para financiar extensos projectos de obras públicas e sociais Programas que reduziram os níveis de pobreza em 25%. Foi reeleito em 2009 e novamente em 2014. Sob sua liderança, a economia boliviana cresceu entre 3 e 6,5% a cada ano na última década. No entanto, a queda dos preços do gás natural ameaça esse progresso, e as condições de seca criaram uma enorme escassez de água. O futuro não é brilhante.

Morales quer um quarto mandato como presidente, mas os limites constitucionais impedem o seu caminho. Em Fevereiro de 2016, os eleitores optaram por manter esses limites em vigor por uma margem de 51-49. Ele diz que quer voltar a concorrer de qualquer maneira. Se o fizer, não há garantias de que ele ganhe dado a sua popularidade ter sido atingida por alegações de que sua ex-amante Gabriela Zapata ajudou a conseguir contratos governamentais no valor de mais de 500 milhões de dolares para uma empresa de engenharia chinesa que a incluía na folha de pagamento.

O Equador passou por sete presidentes em dez anos antes de Rafael Correa assumir o poder em 2007. Correa, um economista esquerdista, colocou os mercados no limite ao declarar em Dezembro de 2008 que o Equador ia falhar o pagamento da sua dívida externa que ele clamava ser "ilegítima" (onde é que eu já ouvi isto…). Esta acção abalou profundamente o Equador, passando a ser com a Argentina e o Paraguai, mais um  falido da América Latina. Mas, por causa do boom do petróleo, a economia continuou a crescer de forma constante, com um crescimento médio de 3,4% entre 2007 e 2014. Durante esse período, o Equador aumentou seus gastos no sector público mais do que qualquer outro país da América do Sul, reduzindo a pobreza em cerca de 10%, com injecções massivas de dinheiro público em obras. No entanto, começou a pagar suas dívidas em 2015 e a controlar os gastos do governo, o que fez com que Correa recebesse elogios do FMI.

Ao contrário de Morales, Correa optou por respeitar os limites de mandato e o controle da despesa e o Equador voltou às urnas este fim de semana. Lenin Moreno, ex-vice-presidente, derrotou Guillermo Lasso, um político de centro-direita e ex-banqueiro, que quer tornar o Equador mais favorável às empresas e impulsionar o investimento estrangeiro cortando impostos. Mas Moreno ganhou por um curto, 51-49% e Lasso está a contestar o resultado. Mesmo se Moreno for o próximo presidente do Equador, ele deve pensar cuidadosamente que direcção tomar, pois antes das eleições, cerca de 70% dos equatorianos disseram que queriam "mudanças relevantes" na politica do governo.



domingo, 26 de março de 2017

As vidas dos brancos pobres também importam !

Nos Estados Unidos, os homens de meia-idade brancos, e com menos educação estão a morrer a um ritmo sem precedentes.
A sua taxa de mortalidade é mais elevada do que a dos negros ou dos hispânicos da mesma idade e com o mesmo nível de ensino. A mortalidade dos brancos com menor escolaridade também é muito maior agora do que era até o início deste século. Parece ser um fenómeno americano dado que não se verificou - até agora - noutras partes do Mundo.
Este é em síntese o resultado de um estudo feito pelo Prémio Nobel de Economia 2015 Angus Deaton e por Anne Case, economista da Universidade de Princeton, que podem ler abaixo.
Neste grupo dos homens brancos, os suicídios e mortes por overdose de drogas, comprimidos e álcool aumentou dramaticamente. A incidência de cancro e de doenças cardíacas também piorou, assim como a obesidade. Desde o ano 2000, que as mortes por estas causas entre os brancos não-hispânicos, com entre 50 e 54 anos, mais que duplicaram. Em 2015 morreram numa taxa duas vezes maior que a das mulheres brancas com as mesmas características, morrendo mais americanos de overdose que com armas de fogo ou acidentes de trânsito. A esmagadora maioria das vítimas eram homens e brancos.
O desemprego, que atingiu duramente este grupo de trabalhadores nas ultimas décadas, não é a única nem a mais importante razão para este flagelo, pois os trabalhadores hispânicos e negros também perderam os seus empregos e viram cair os seus rendimentos e, no entanto, a sua longevidade aumentou!
De acordo com estes dois economistas, a causa mais profunda deste fenómeno tem a ver com o que eles chamam de "desvantagens cumulativas". Estas são as debilitantes condições e hábitos disfuncionais que este grupo humano tem acumulado ao longo de sua vida como reacção as profundas transformações económicas e sociais.
O abandono escolar precoce para uma entrada no mercado de trabalho pouco qualificado, mas que pagava salários interessantes numa altura de boom económico dos anos 80, teve os seus efeitos letais quando esses postos diminuíram com a desindustrialização e relocalização industrial. Outras mudanças na sociedade como o papel das mulheres na família e na sociedade, derivado da sua cada vez maior presença no mercado de trabalho, o aumento do divórcio e a fragmentação da família, bem como a sua difícil mobilidade social, tornou esta classe a mais vulnerável a uma "morte por desespero." São homens que já foram felizes e prósperos e que de repente ficaram sem futuro, nem para eles nem para as suas famílias de quem se sentem psicológica e socialmente responsáveis.
Gostava bastante que Trump - que foi eleito também com muitos votos destes homens brancos – reverte-se este genocídio racista e xenófobo que os “Estados” Unidos da América têm deixado acontecer com o beneplácito de Clinton, Bush e acima de tudo de Obama e dos políticos Democratas, pois a sua aposta no "assistencialismo social aos desfavorecidos" não parece ter chegado para este grupo.
Não concordo nada com medidas proteccionistas e com investimentos públicos massivos em infra-estruturas, mas se foram eles a alterar este estado de coisas, terei de as aceitar, pois a vida destes brancos também importa!



sexta-feira, 24 de março de 2017

Lobos pouco solitários

Um ano depois de Bruxelas o terror voltou a Londres. O terrorista foi identificado como sendo Khalid Masood, 52 anos de idade, nascido no Reino Unido, que tinha vivido recentemente em Birmingham.

Era casado e tinha filhos. A polícia já o tinha investigado anteriormente, mas determinou que ele não era um risco para a segurança. Ontem, à medida que mais prisões foram feitas em Birmingham e Londres, ficou claro que Masood não agira sozinho .Masood fazia parte de uma rede de extremistas jihadistas baseados em Birmingham, que o The Times refere ser um campo de recrutamento para o Estado Islâmico.

Em 14 de julho de 2016, Lahouaiej Bouhlel, tunisino residente na França, matou mais de 80 pessoas e feriu centenas ao varrer, com um camião de carga de 19 toneladas, uma multidão que celebrava em Nice o dia da Bastilha. Poucos dias depois deste massacre, um emigrante afegão de 17 anos que procurava asilo na Alemanha atacou passageiros com um machado e uma faca num comboio em Würzburg, ferindo quatro antes que a polícia o matasse.

Tempos depois o ISIS reivindicou a responsabilidade pelo ataque em Wurzburg lançando um vídeo com o autor que demonstrou que o ISIS tinha conhecimento prévio do que pretendia atacar. Menos de uma semana após o ataque de Nice, as autoridades francesas revelaram que Lahouaiej Bouhlel não podia ter agido sozinho. Vários indivíduos foram detidos conectados com o massacre. Um suspeito tinha mesmo posado para uma foto no camião que Lahouaiej Bouhlel utilizou para matar. Além disso, o perpetrador, planeava o ataque à meses. O Estado islâmico tomou o crédito da acção e apresentou fotos do assassino levantando seu dedo indicador no ar.

Anis Amri, tunisino, utilizou o mesmo meio que Bouhlel e atacou um praça do mercado de Berlim, em 19 de dezembro de 2016, matando 12 pessoas. Fazia parte de uma rede composta de radicalizados do Daesh e de outros extremistas locais. Uma câmara de CCTV apanhou Amri, pouco depois do ataque, apontando seu dedo indicador e indicando seu compromisso para com a causa do grupo. Quatro dias depois, em 23 de Dezembro, Amri foi morto numa operação casual em Milão. Ficou claro que o ataque tinha sido cuidadosamente planeado.

A natureza da radicalização e do planeamento operacional na era digital transtornou os esforços para perceber e analisar os ataques realizados por indivíduos isolados. Os Jihadistas que planeavam os assassinatos no Ocidente costumavam reunir-se pessoalmente em pequenos grupos em mesquitas, casas ou outros locais discretos. A radicalização ocorria através do contacto pessoal em bairros problemáticos ou prisões e as autoridades antiterroristas faziam o seu trabalham vigiando os centros de recrutamento, monitorizando telemóveis e vídeos de vigilância, para obter provas de que as células se estavam a reunir preparando algo.

Com o boom das redes sociais e o crescimento e banalização das aplicações para comunicações criptografadas, a radicalização e o planeamento operacional podem facilmente ocorrer inteiramente em ambientes digitais. O Daesh capitalizou a seu favor as tecnologias de comunicação, construindo comunidades on-line que promovem um senso de comunidade e, assim, facilitam a radicalização.

O grupo também estabeleceu uma equipa de recrutadores digitais que usam a Internet para identificar indivíduos com apetência para a causa e para coordenar e dirigir ataques, isto feito sem qualquer conhecimento pessoal dos terroristas.

Perante esta verdadeira transformação digital das organizações terroristas, o termo “lobo solitário” não parece mais que uma sound bite que soa bem nos media generalistas e que tantas vezes os próprios comentadores subscrevem. Estes terroristas nada tem de solitário, só o sendo no dia e hora em que executam o que células organizadas e hierarquizadas planearam durante muito tempo. Este conceito interessa ao terrorismo por duas razões centrais 1) dá uma imagem de incapacidade da policia perante um único elemento terrorista 2) promove o medo entre a população, fazendo com que pensemos que “todos podem ser terroristas em qualquer lugar em qualquer instante". É tempo de mudarmos de discurso por muito “romântico” que soe à comunicação social.

Uma alcateia é uma estrutura altamente organizada e hierarquizada sendo que todos os membros obedecem a leis determinadas pelo colectivo. Esta é a única forma de, em ambientes muito adversos, se garantir a sobrevivência do grupo. Esta estrutura social promove como prioridade a unidade e ordem, reduzindo os conflitos e os comportamentos agressivos entre os integrantes. Como o Daesh.




quinta-feira, 23 de março de 2017

Londres 22/03/2017

Sobre os acontecimentos de ontem cito as palavras da jornalista independente e repórter de guerra Vanessa Beeley e do Politico Republicano Libertário Ron Paul

Vanessa - “I dont apologise for feeling angry that the blood of innocents in Damascus, Ukraine and Yemen is allowed to pool in the gutter with no mention from our UK state media. No condemnation of the terrorism, our regimes have created, promoted and inflicted upon the world. There is no BBC 24 hour coverage of the torn body parts, mutilated children and relatives screaming in pain and loss when they find their loved ones among the charred remains of another UK bomb or US supplied grad missile. No close up of the twisted corpses, ripped apart by a UK supported suicide bomber, as they are piled up in the back of a truck.

No, we call this monster a "rebel" and celebrate his "advances"

I grieve any loss of life but I abhor hypocrisy. Lives that were lost yesterday, in London, are as a direct result of the same terrorism that brings daily horror to Damascus and it resides in our halls of power and among the chosen allies of the UK regime. Above all, it crawls & breathes, among us, in the terror cells, incubated and nurtured by our state and deep state actors, on UK soil, before being despatched to massacre more innocents in Syria or Iraq.

Yesterday, when the beast bit the hand that fed it, the terrorism chief fled her post with an armed guard and left her civilians to be massacred. They betray you, and betray humanity, on a daily basis, yet you attack me for pointing it out to you?”

Ron Paul - "If you hit someone and kill their family, they will hate you and probably hit you back in the future.

That’s what blowback is all about. It seems like such a simple concept, but many of my opponents vehemently denied its validity.

They proclaim that what our military does abroad has no effect on how the citizens of the world feel towards us. The 9/11 terrorists hated our wealth and freedom so intensely that they sacrificed their lives to prove it? (Of course, our government bombing their countries, propping up their dictators and supplying their enemies with money and weapons had nothing to do with it…)

Instead of securing our borders, we’ve been planning, initiating and waging wars of aggression. Our military is spread thin all across the planet, yet we remain involved in dangerous power plays that unnecessarily put the lives of our soldiers at risk. And we brazenly squandered the wealth of our nation as if there were no tomorrow.

It doesn’t make any sense unless you consider increasing the profits of the military-industrial complex to be in the “national interest”, no matter what the cost to the rest of us may be."

Doravante nada mais há a fazer que não seja; 1) Não aceitar esta realidade, não ser conformista 2) não pactuar com ninguém que nos diga que isto tem de ser assim 3) Formar as nossas crianças nos valores da liberdade, propriedade e paz 4) Estar preparado para se defender de quem nos atacar aqui 5) Deixar de atacar os que longe daqui nada têm a ver com isto.


sábado, 18 de março de 2017

Aqui chegados

Foram vários os comentadores políticos que, com Trump nos EUA e após o Brexit, anteciparam a mudança politica na União Europeia e o fim da mesma como a conhecemos. Era esperado o efeito dominó. Esse foi mesmo o vaticínio de Marine Le Pen. É bom fazer uma reflexão sobre o que aconteceu desde que aqui chegámos olhando para o que se passou desde o momento em que o UK decidiu sair da EU.

Rajoy ganhou em Espanha. Rajoy que tinha preparado o resgate Espanhol em 2012, não foi penalizado sobre maneira pelo eleitorado, tendo por outro lado o PSOE relegado o Podemos para a subalternidade. A Espanha está crescer.

Na Áustria, Van der Bellen ganhou ao nacionalista Hofer, mesmo com este ultimo a dizer cobras e lagartos da EU, isto ao mesmo tempo que afirmava que não defendia a saída.

Na Holanda Mark Rutte ganhou a Geert Wilders que, mesmo reforçando o seu peso parlamentar, dificilmente será parte do novo governo.

Por outro lado, no Reino Unido, a libra caiu, a economia não tem as melhores perspectivas futuras e as pressões nacionalistas escocesas reavivaram, com Sturgeon a exigir um novo referendo.

As eleições em França, em Abril onde Le Pen não está próxima de ganhar contra Macron e isto apesar do escândalo Fillon, e as eleições na Alemanha com Merkel ou Schulz a ganharem, ou seja, ou centro ou centro ditarão, no meu entender, se o Brexit foi a primeira peça do dominó a cair ou se a EU acaba a sair reforçada de tudo isto com a UK a ficar nos chamados maus lençóis.

A última esperança para um dominó pós-Brexit é a Itália com populistas à esquerda (Movimento 5 Stelle, ou M5S) e à direita (Liga Norte). Mas Renzi não está acabado e é bem provável que o antigo primeiro-ministro tenha uma boa hipótese de ser o novo próximo primeiro-ministro.

Neste momento a economia Europeia melhora e visto daqui não parece que o populismo iniciado do outro lado do Atlântico vá ter idêntica expressão na Europa. Mas muita água ainda vai correr debaixo das pontes Europeias. Aguardemos.